Quando o povo se levanta a esquerda se rebaixa
o que revela que a esquerda é isto mesmo: baixa
Em: 22/08/2018
Moradores e
trabalhadores da comunidade da Fé em Deus, Residencial Jackson Lago e de várias
ruas do entorno, depois de muito aguardarem providências dos poderes públicos
referente ao abandono do terreno da empresa de cimentos Nassau, decidiram pela
invasão. Há mais de cinco anos se desenrola o imbróglio na justiça uma vez que
o senhor proprietário da Nassau se achou lesado no processo de negociação e
venda da área para o Estado. Em tese, deveria surgir ali mais um conjunto
habitacional no sentido de prover trabalhadores e trabalhadoras ainda não
contemplados com as políticas públicas de moradia. Os moradores exigem rapidez
na solução dos problemas judiciais sob pena de organizar-se mais um movimento
paredista. O inacabado PAC Rio Anil teve seu início em 2007 e, de lá para cá, observou-se
vários problemas que se manifestam até os dias de hoje, ocasionados
principalmente pela troca ilegal de governo originado pelo golpe de estado, via
judiciário, da oligarquia Sarney sobre o então governador, democraticamente
eleito, Jackson Lago, âmbito no qual o projeto inicial do PAC foi desfigurado.
O terreno
baldio serve atualmente como esconderijo de marginais, depósito de lixo e
entulho e criadouros de mosquitos transmissores de doenças. É possível que o
local esteja atraindo pessoas de facções rivais, sendo assim, considera-se
essencial a ocupação e utilização do espaço para evitar quaisquer tipos de
escaramuças.
A decisão
de ocupar foi tomada coletivamente em reunião e as mobilizações aconteceram principalmente
pelas redes sociais. E pelas redes, observava-se ativistas apresentando ideias
de invasão em outras áreas da cidade.
Mulheres
negras descalças e sujas de lama do mangue até os joelhos; estudantes que,
atônitos, voaram da escola até o movimento que obstruiu as avenidas IV
Centenário e Governador Luís Rocha; trabalhadores que após o turno de trabalho
se uniram ao nosso bloqueio; enfrentamento com a polícia; helicóptero e
bombeiros: estes foram alguns dos ingredientes que fermentaram a quarta-feira
dia 22 na comunidade da Fé em Deus. Foi uma aula de atitude e perseverança. O
movimento desde o início se mostrou vitorioso e, ao final, conseguimos
articular uma comissão de cinco moradores para se reunir com a Secid para
debater e encaminhar o assunto.
Nossa
comunidade tem uma história de lutas. Não é de hoje. A principal razão da
fixação das comunidades (Liberdade, Fé em Deus, Camboa) se deveu à instalação
de grandes fábricas como a pioneira Companhia de Fiação e Tecidos Maranhense,
em 1890, junto da qual se fixaram os operários, cujas palhoças foram
identificadas logo nos primeiros registros de habitações insalubres na cidade
(Relatório de Saneamento e Profilaxia apud Sousa, 2006). Em 1918 foi inaugurado
na região o matadouro, que originou o núcleo de povoamento do bairro que é hoje
a Liberdade, enquanto a ocupação do bairro Alemanha está associada à chegada de
franciscanos alemães e consolidou-se a partir de 1950, com a construção do
Conjunto Habitacional Newton Bello. As facilidades de acesso à área, tanto por
via marítima como ferroviária, determinaram ainda a fixação da Companhia
Brasileira de Óleos e da Companhia Carioca de Óleos, estas já na década de
1940. Ferreira Gullar quando, exilado na Argentina, escreve o Poema Sujo
evocando a sua cidade natal, dedica 15 páginas a estes bairros (Fé em Deus,
Liberdade, Camboa) que descreve como “a noite proletária”: “a plataforma
fumegante de cinzas e detritos da fábrica (…) a vida fechada dentro da lama (…)
o rio que apodrece”. A tradição de mobilização e luta coletiva por melhores
condições de vida, característica dos bairros, é provavelmente derivada dessa
origem operária. Mas há também referências à influência do missionário jesuíta
italiano Giovanni Gallo que foi vigário na igreja de Santo Expedito e estimulou
a organização popular e a formação de lideranças.
Já deveria
ter postado tal experiência neste blog passados mais de um ano. Mas não sem
antes mencionar um fato tão típico que vem bem a dizer o que é ser esquerda
(ex-querda), sentimento reativado após uma conversa com um amigo de ideologia
revolucionária: todos os camaradas de esquerda com quem convivo e adiciono-me
nas lutas pelas comunidade supracitadas foram os primeiros, a primeira linha
reacionária de combate ao movimento de moradores ao que eles taxaram de “coisa
de bandido”, a primeira linha de resistência reacionária que os trabalhadores de
luta sofrem quando se levantam em atitudes enérgicas são os pelegos e depois as
lideranças sindicais e populares, apenas por último é a burguesia e seu estado
policial. Foi o que aconteceu. Meus camaradas de ex-querda me perguntaram se eu
sabia desse movimento de "bandidos" e eu pensando “claro fui eu quem propus a
ocupação do terreno”. Qualquer indivíduo que se imagina de esquerda necessita matar todos os dias o fascista que mora dentro de si! Agora sim, texto pronto, verdade dita, que se publique e dê-se ciência!
Meu benemérito camarada HG Erik com sua tradicional astúcia e com muita propriedade trata do tema:
https://www.facebook.com/hg.erik/posts/1220404167980582
Fotos das reuniões da comissão de negociação abaixo:









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