As experiências do camarada “Jacó” nas
lutas no campo no estado da Bahia nos 80, 90 e anos 2000

As alianças com os
trudoviques [nossos trudoviques, por exemplo, que sejam o MST, não merecem
crédito para nada em comum.], penso, foram as mais frutíferas feitas pelos
bolcheviques. O livro do Edmilson me trouxe suscitações sobre a questão
camponesa hoje. Creio que enquanto classe estão mais fracos que os operários.
O Jacó, esse era
meu nome no sem terra, da epígrafe do livro de Edmilson Carvalho, sou eu.
O boom do MST foi
nos anos 90. A bandeira da reforma agrária era atrativa pros desempregados do
neoliberalismo de fato, advindo com Color. Em 97, o negócio estava brabo mesmo,
teve a crise do México, 09 [acho que quis
dizer em 1999, crise que derrubou FHC].
O sistema bancário
brasuca, Proer, etc, foi o auge na obtenção de recursos, a era FHC destinou
mais recursos e terras (na mediação dos conflitos) [que o período Lula]. O MST
apontava pros desavisados um farol revolucionário pois gerenciavam uma mão de
obra mobilizável em marchas, marchas mais pra Mao Tse Tung do que pra Prestes.
Por trás do MST, funcionava uma articulação política, o sdumo [acho que ele quis dizer suprassumo] do
reformismo (articulação de esquerda, Stedile, etc.) misturando fraseologias
messiânicas, foquistas, nacionalismo, agrarismo e recampesinação.
O FHC soltou uns
recursos à custa de muita pressão. Quando chegou Lula, quando a máquina governamental
absorveu as oposições políticas do reformismo, diminuíram as desapropriações,
os assentamentos e a liberação de recursos para os que eram recém empossados e
quem não tinham inserção camponesa no lugar onde se encontrava
acampado/assentado foram embora. Veio a pré-marolinha, surgiram empregos na
cidade e a pressão pela redistribuição fundiária voltou a ser coisa de camponês,
um limbo ficou para administrar o que ficou de estrutura atendida pelo Incra e
pelas verbas governamentais e uma casta se apresentou pra tocar isso, partiu para
as articulações e disputas eleitorais ao feitio do PT no governo, misturou
alhos e bugalhos, fez alianças sem nenhum pudor com os representantes
ruralistas, levou esse povo pra pedir voto no campo, etc.
E tinha também os
interesses particulares e o financiamento de vida boa. Se você pegar a direção,
quanto mais graúdo o cargo mais grana juntou. Rolou muitas verbas e programas.
Nos anos 90, cumpriram também um papel contrarrevolucionário, enganaram muita
gente com a tática de lona preta. Pensavam que MST era revolucionário. Os
acampamentos de beira de estrada, as marchas, etc., impressionavam muita gente,
currais eleitorais eram negociados, daí surgiam vereadores e deputados do MST,
PT e etc. Novas cidades, novas vilas eram criadas, era tudo muito lindo.
A direção do MST é
desonesta e mau caráter. O tal "racha dos 51", Grupo X. Um pessoal do
MST no Rio Grande do Sul racha em 2010 e gira-se para a cidade organizar a luta
no local de trabalho no operariado fabril na Intersindical. Isso após serem
"exilados" pela direção para um assentamento isolado após uma ação
que fizeram.
Na verdade, em vários estados temos dissidências do
MST.
Eu nunca tinha
acreditado neles, conheci a história ainda nos anos 80, campanha da encruzilhada
natalino, fazenda anoni. Morei na chapada onde teve trabalho clandestino camponês
e nos anos 70 e, na metade dos 80 estava em refluxo. Muitas lideranças daquela
época, tinha o Lili, o cara que fazia tremer congressos país afora e que foi
colher cana na Nicarágua. Tinha Estafeta, Zequinha, Dedé que também tinham sido
militantes clandestinos entre os oleiros em Iaçu, cidade de forte presença
comunista entre os ferroviários.
Quando voltei pra
Bahia em 2000 quase todos estavam no MST. Geralmente, a chegada do movimento
regularizou a posse de alguns assentamentos que vieram de lutas dos anos 50/60
e nos anos 90 foram reconhecidos, eu encontrei muitos já no MST, alguns que
tinham sido "nossos", José Novaes não foi Secretário Rural da CUT na
primeira direção à toa, existia um trabalho muito forte entre os camponeses que
vinha de AP [Ação Popular, hoje no PSOL],
depois maoísmo do PCdoB, lutas locais.
O velho Novaes
estava e escapou da chacina da Lapa e isso contou nas suas críticas.
O maoísmo no MST
acho que não é forte não. É forte mais na Liga dos Camponeses Pobres. No
tocante ao MST digamos que eles copiam algumas táticas, sempre tentando o
mecanicismo. Participei de algumas marchas, de durar semanas, teve umas que
atravessaram o Brasil quase, eram em alianças com o MST.
Ajudei a criar um
movimento pra não se juntar ao MST, pra poder se juntar com eles. Em 2000 eles estavam
queimados aqui na Bahia, isolados. Criamos uma articulação que virou movimento e
o primeiro ato foi se aliar a eles, ocupar Incra, tirar superintendente, fazer
algumas ocupações simbólicas, fiz isso individualmente, nunca meti a OPOP nisso,
os caras ficavam pirados pois do grupo que eu participava 90# eram verdes
politicamente [não entendi isso de “90#”,
acho que quer dizer anos 90], não conheciam comunismo, revolução, Marx, Mao,
foquismo, etc. E eu era da coordenação, eles não conseguiam tratorar e do ponto
de vista de ações, tínhamos uma equipe bem corajosa que topava enfrentar qualquer
parada.
Fiz a parte de
costurar 6 regiões do estado que era de sem terra mas não eram MST, quando
perguntei onde eles produziriam aquelas coisas a maioria disse que era quando
conquistasse a terra, a galera discutia projeto, comercialização e num encontro
achei a deixa. E propus que criássemos um movimento, a assessoria da igreja se
empolgou e trouxe umas áreas igrejeiras que sempre foram motivos de conflitos
internos, criamos um movimento com congresso e tudo. E, nessas conversas,
acertamos que íamos mostrar força e como a galera não tinha experiência mais
pesada disso propus e costurei com o MST uma aliança pras tais jornadas de
abril, o Abril Vermelho.
Eu era de uma
ocupação, a gente garantia espaço nas armas contra o latifúndio e, quando cheguei
na Bahia, era 2000, na primeira semana já fui no sem terra em fevereiro.
De 2001 em diante
é que foi abril vermelho em memória de Eldorado. Na verdade, em 2000 não foi
abril não, foi em junho. Aí rolou uma ocupação do Incra, derrubamos o
superintendente e tal. O MST tava queimadaço na Bahia, só a partir de 2001 e
2002 foi abril vermelho, eles estavam sem forças pra sair sozinho e nós (sic)
não tínhamos peito de sairmos sozinhos. Houve marchas de Feira de Santana a
Salvador, uns 130 km até o Incra.
Em 2002 ocupamos
uma usina de açúcar no recôncavo baiano, 56 dias ficamos lá. E eu era
coordenação, porta voz, entrevistas, essas coisas.
Daí em 2003,
saímos sozinhos, 5 mil camponas, tava pressão pra indicar gente pro governo
Lula, cooptações, etc. Eu de coordenação da marcha, fiquei sozinho pois, embora
o movimento tenha aprovado minha tese em não indicar nem participar do governo,
os outros coordenadores foram participar da política de partido e aí, sim, em
troca de Pronera, Pronaf, convênio de assistência tecnológica, vocês sabem,
tudo PT. Eu me afastei, fiquei na ocupação. Vereanças, tal. Entreguei meu cargo
de representante da área, o cargo de coordenador regional e de estadual também
Eu, ironicamente,
em janeiro de 2003, lancei o Fora Lula. Eu sempre militei no Sem Terra no
argumento. Nem construí grupo orgânico, entrei por solidariedade e agi assim,
não pensei em cooptar ninguém. Claro, tinha uma galera mais próxima, que sempre
tava junto.
Eu saí da direção,
e mesmo de fora, em 2004 fui processado pelo governo do estado, por liderar
invasão de prédio público, sem lá ter estado.
Tô alongando. Bom,
o MST se apresentava como direção camponesa, o MPA era tipo uma extensão, se diziam
defender a Via Campesina (participei da coordenação da Via) e vi que eles se
interessavam pela repercussão, não da linha camponesa da Via e quando veio o
governo Lula já começou cruel pros camponeses com a desculpa do superávit.
Fui
num evento e apareceu uns eóruicos [teóricos]
da UFBA já dizendo que a globalização impunha outra realidade e aquela ideia de
camponês, família, comunidade rural não condizia, o campo hoje era mecanizado e
tal.
A este formidável
relato do camarada Jacó, segue-se outras intervenções.
Pergunta-se
se há ainda campesinato no brasil? Se há, não é uma classe que está toda
subordinada, do ponto de vista econômico, ao capitalismo? Responde-se que há operários
e trabalhadores do campo e da cidade. Que é camponês? servo da gleba, sem
produzir mercadoria e comprar mercadoria está em extinção, assalariado rural é
maior numericamente. Assalariado rural e pequeno proprietário são maiores.
Camarada Jacó
continua os relatos.
Grande
parte dos camponeses que encontrei em ocupações na Bahia eram operários que não
arranjavam emprego, gente de trecho que já tinha trabalhado na indústria e na
construção civil brasil afora. São os recampesinados. E também operários da
transição plantation/agro, pra mim foi essa galera que o MST passou a perna, o
mesmo grupo criou o MPA uns 2, 3 anos antes. Os campesinos de origem, notadamente
os sulistas mantiveram uma luta política mais separada, e a demanda daqueles
operários desempregados que falei ... postos foram cortados, então essa galera
inflou os acampamentos atrás de ter seu pedaço de terra e, muitas vezes, é porque
lá tinha ao menos a cesta básica, feijão, arroz e fubé [fubá] pra não passar fome.
O
desenvolvimento de Lula e Dilma diminuiu MST e MTD (desempregados). Mas, a redistribuição
fundiária, num cenário de terra arrasada no aprofundamento dessa crise pode
voltar à tona”.
Essa parte não entendi. Jacó diz: “Estes dois tinham inserção
orgânica entre os camponeses”. A quem você se refere? Trudoviques e socialistas
revolucionários?
É
aí que pensei nos trudoviques, sua importância em determinados momentos
aliançados com os bolcheviques, creio que mais confiáveis que os socialistas
revolucionários. Aliás, os camponeses russos forneceram admiráveis revolucionários.
E nós não temos uma representação camponesa que possa tratar de alianças
específicas. Se bem que os socialistas revolucionários, com sua cisão esquerda,
ajudaram nos primeiros dias pós outubro.
Essa parte não entendi. Jacó diz: “(...) era movimento de
assentados, acampados, ocupantes e quilombolas. Que movimento é?
Fui
sem terra sem jamais acreditar no campesinato, ajudei a fomentar um movimento
aqui na Bahia que se tornou maior que o MST, acabou hegemonizado pela reforma,
pela igreja, cheguei a ser "liderança" com respaldo da massa. Fiz de
tudo, fui coordenador de ocupação, comandante militar, cozinheiro, coordenador
de marchas, de segurança, de infra, de alimentação, comandante de ocupações de
prédios públicos, lavrador, negociador, magarefe (matador de gado), saqueador,
etc. Fui coordenador da via campesina também além de coordenador da Rururbanos:
rurais e urbanos que rolou na Bahia e que trouxe um importante camarada à
terrinha pra trocar ideias sobre uma articulação nacional. Tive minha casa
queimada em mImbassaí [deve ser Imbassaí] num assentamento do litoral norte da
Bahia próximo a praia do forte onde a luta era ferrenha contra a especulação
imobiliária de resorts de capitais espanhóis e portugueses. E, depois de tanta
perseguição e brigas, terminei meio que clandestino num assentamento do MST
(sem conhecimento da direção) na região do Vale do Rio Gavuião, tão cantada por
Elomar.
O
capoeirista mais famoso da minha cidade que hoje tem escolas na França, Grécia
e Holanda eu o quebrei na mão grande no meio da praça, fui bom em brigar na mão,
sempre achei que a coragem, o não temer, deve ser primordial pro militante, sem
ser herói também, acho que toda ação militante, mesmo uma mínima palavra ou
gesto, tem que ser centralizada pela organização. Seguindo a trajetória do meu
avô e do meu pai, também sou bom no facão, conheço 23 pontos diferentes de
jogar facão, sou bom de maculelê, habilitado pra enfrentar onça.
[suprimi
alguns trechos dos relatos do Jacó e de outros camaradas que dizem respeito às
táticas de enfrentamento]