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domingo, 11 de abril de 2021

Primeiras impressões Trust Revolution

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Faço minhas primeiras anotações sobre o movimento espontaneísta TRUST REVOLUTION.



O Robert tem a preocupação acertada de se mostrar com a máxima abertura para todos aqueles/as que queiram aberta e fraternalmente construir o Trust Revolution.



Tanto é assim que percebi que ele formulou "nas coxas" um documento PDF explicando o que é o tal "materialismo histórico-dialético" como se quisesse dialogar com o público alvo marxista. Despejou os maiores hits do remastigado clichezão marxista vulgar, entulhos de "materialismo histórico dialético" que Marx nunca falou. Mas tá valendo a intenção.



Eu não entrei pro Trust dado seu caráter marxista ou não e sim pela coragem revolucionária de não impor obstáculos burocráticos os quais percebo em várias organizações da esquerda brasileira de inspiração revolucionária.



Como ele suspeita que talvez a construção de uma tecnologia social preveja a circulação de afetos - e no caso não queremos qualquer tecnologia mas sim uma tecnologia revolucionária (que em outras épocas foi o partido centralizado de Lenin) - ele mobiliza acertadamente o significante-mestre de "Revolução". É um crivo para selecionar e deixar de fora a ilusão de reformas e eleições e ao mesmo tempo uma convocação para saltos mais ousados.



Há aquelas organizações que enaltecem a democracia, não é o nosso caso. Escapamos tacitamente desse binarismo chucro quando elevamos a palavra de ordem REVOLUÇÃO como norte espiritual e prático.



Pois é.



Tenho reparado com atenção especial a posição anti-sindical do Trust, debate específico que remete ao debate geral de concepção organizativa: qual nossa relação com o povo, o que pode o povo fazer e quais são as tarefas do Trust Revolution.



Nas primeiras conversas com o Robert reparei que ele produzia argumentos diretamente contraditórias entre si.



Primeiro, ele disse que não deveríamos nos guiar pela história, aqui tomada como passado e que portanto não volta mais, por outro lado, lembra que a revolução cubana foi feita por 18 indivíduos iluminados.



Eu lhe respondi que não devemos nos guiar pelas experiências históricas em que pese também não esquecer da mesma história que nos legou e herdou o que vivemos hoje.



Segundo Roberto, não devemos também esperar a sublevação da totalidade do povo mas lembra que 50 milhões de americanos lutaram contra o domínio britânico e contra a escravidão.



Ele está certo ao dizer que não se deve esperar pelo povo pois os revolucionários são aquele povo que é pró-ativo, que não devemos esperar pela história pois somos a história viva, que nós fazemos a história acontecer pois a história acontece por nós, não é um ente autônomo que constrói a realidade em nosso lugar, que não devemos esperar por ninguém pois nós mesmos somos aquele alguém o qual sempre esperamos. Nós, nós e nós de novo.



Diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek em um de seus livros: NÃO ESPERE PELA REVOLUÇÃO QUE ASSIM ELA NÃO VEM. E mais:



É preciso manter um mínimo de antideterminismo: não há nada jamais escrito numa “situação objetiva” que impeça qualquer ato, que nos condene totalmente à vegetação biopolítica. Há sempre um espaço a ser criado para o ato, exatamente porque, parafraseando a crítica de Rosa Luxemburgo ao reformismo, não basta esperar com paciência o “momento certo” da revolução. Quando apenas se espera por ele, ele não vem, porque é preciso começar com tentativas “prematuras”, que - e aí reside a “pedagogia da revolução” -, pelo próprio fato de não conseguir atingir o alvo declarado, cria as condições (subjetivas) do momento “certo”. Recordemos o lema de Mao: “De derrota em derrota até a vitória final”, que se reflete no mote já citado de Beckett: “Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor”. É preciso não esquecer que a revolução nunca chega “na hora”, quando o processo social objetivo gera as condições “maduras” para ela – o ponto principal da famosa noção de Lenin a respeito do “elo mais fraco da corrente” é que, mais uma vez, se deve usar a “anomalia” como alavanca para exacerbar os antagonismos, de modo a possibilitar a explosão revolucionária. 



Sobre os dezoito indivíduos em Cuba diz o site https://contrapoder.net/artigo/o-papel-da-classe-trabalhadora-na-revolucao-cubana/contrapoder.net:



(...) A essa altura, o regime de Batista já enfrentava um grande desgaste junto às massas populares e importantes greves vinham ocorrendo, como a dos bancários, em 1955, e dos trabalhadores do setor açucareiro, em 1956 – as quais tinham tanto pautas econômicas, como também exigiam o fim da ditadura. Esse desgaste aumentou ainda mais com a crescente repressão policial a partir de 1955, o que também levou ao distanciamento dos setores de classe média; por exemplo, as eleições de 3 de novembro de 1958 foram marcadas pela abstinência de mais de 80% da população, mesmo sendo o voto obrigatório. Por volta de 1957-58, até mesmo setores do empresariado cubano e operativos da CIA atuando junto à Embaixada dos EUA estavam contra Batista. Sem essa situação de crise de hegemonia do regime de Batista, os rebeldes do M26J dificilmente teriam conseguido rapidamente passar de uma pequena guerrilha rural a um Exército Rebelde, e teria sido impossível tal exército derrotar os 50 mil de Batista.



Ou será que ele enumerou propositalmente a revolução cubana pra me conquistar, me fazer de público alvo?



Talvez o co-fundador Robert não saiba ou finja não saber a relação recíproca e mútua entre povo/massa/trabalhadores/classe e organização/vanguarda/direção/partido.



Atenção. Por partido não digo legenda reconhecida por algum tribunal. Não sei como é nos EUA.



Posso fazer uma analogia com a ciência física e a transformação de energia. Imagine que povo/massa/trabalhadores/classe são o raio espontaneísta que cai e causa apenas estragos e destruição. E agora imagine que tenhamos uma máquina que "pegue" o raio e transforme energia em trabalho. A tecnologia que conduz a energia do raio em algo benéfico é a organização/vanguarda/direção/partido ... que é o que o TRUST REVOLUTION se dispõe a ser: um para-raios!



Poderia fazer a analogia com a psicologia: raiva e válvula de escape.



Se ele não entende reciprocidade, mutualidade e relacionalidade - coisas que os antigos chamavam de DIALÉTICA, posso afirmar que Robert está com um pé no autoritarismo.



Pode ser que seja só uma tática pra mobilizar: dizer que cada indivíduo deve ser o exemplo que sempre buscou.



E aí eu lembro das palavras do camarada N.: 



Que não adianta empunhar filosofia de auto-sacrífico pessoal de exército americano desconsiderando as condições de existência de cada indivíduo (podemos afirmar que, porque uma camarada nossa está falando muito nas reuniões, que ela está saindo fora?), que nós não estamos aqui no movimento pra prestar prova ou concurso de passar de ano. 



O maior ponto forte das analogias são também seu grande ponto fraco. O Trust Revolution não é um partido (legenda) que filia pessoal e nem é uma empresa cujos funcionários não criticam o patrão.



É bem verdade que o plano estratégico do Trust tem que ser seguido, concebidas e respeitadas cada etapa organizativa nível 1, 2, etc. Uma organização revolucionária séria não é brincadeira onde cada um faz o que quer e defende a posição política que desejar.



E outra verdade é que cada localidade e cada regional deve já ir pegando na massa, não esperando conselhos ou o que a direção internacional diga o que deve ser feito. Se tem um camarada, que não é presidente, mas que acha importante elaborar planos de ação (local, regional ou internacional) que o faça pois contra não seremos. A mágica da empreitada é ir convergindo o que vem de "cima" com o que vem de "baixo".



Como eu disse, o que ensejou o debate de concepções gerais foi o tema sindicatos.



Nas reuniões e diálogos do Trust Revolution falávamos sobre a validade dos meios e instrumentos históricos de luta do povo. 



Pontuávamos, não sem razão, que o sindicato já está com prazo de validade encerrado uma vez que a maioria do movimento sindical brasileiro (e não só brasileiro) está completamente fora de órbita da luta real dos trabalhadores, muitas das direções sindicais são especialistas em sabotagem de greves e acordos de gabinete, destruiu-se e afundou-se a representação sindical em nome da pseudo-luta da representação parlamentar.



E há também o problema oposto. 



Por outro lado, curiosamente, quando o trabalhador observa que a direção sindical é presente e atuante ele o trabalhador se apazigua, se acomoda, é o que vemos por experiência própria no SINTRAP - sindicato de trabalhadores da cidade de Caxias (estado do Maranhão).



É o velho problema psicológico da representatividade, quando a pessoa encontra quem faça por ela no sentido não de substituição mas de representação, ela deixa de mão, se desresponsabiliza.



Por isso a democracia liberal é uma desgraça porque ela drena as energias mobilizadoras dos indivíduos e da pior forma: "os políticos são os representantes, está na Constituição". 



Parte daí minha crítica à direção do Trust que acha que um pequeno número de pessoas pode efetivamente realizar as transformações necessárias. Será que podemos deixar o povo em stand by? 



O perigo disso é se, quando olharmos pra trás, não encontrarmos ninguém marchando conosco porque, como não precisamos ser vigiados uma vez que nunca trairemos o povo, o povo que acreditou tanto na gente acabou nos deixando sozinhos na hora do combate decisivo.



Quando o povo chancela sua representação a uns poucos indivíduos, ele o povo trai a si mesmo.



Voltando ao tema sindicato.



Curiosamente no ponto 3 (Ajudar o povo a ter senso político) na documento "Pautas de Transformação", considera-se sindicatos pelo menos em caráter pedagógico:



É necessário o entendimento coletivo das ferramentas da política, desde o funcionamento das leis que regulam o exercício democrático (como a função dos cargos políticos e as etapas e hierarquias) até um exercício mais ativo da política pelas vias de assembleias, associações, sindicatos, grêmios e etc...



Vejamos como Karl Marx aborda os sindicatos lá no O Capital:



Os sindicatos trabalham bem como centro de resistência contra as usurpações do capital. Falham em alguns casos, por usar pouco inteligentemente a sua força. Mas são deficientes, de modo geral, por se limitarem a uma luta de guerrilhas contra os efeitos do sistema existente, em lugar de, ao mesmo tempo, se esforçarem para mudá-lo, em lugar de empregarem suas forças organizadas como alavanca para a emancipação final da classe operária, isto é, para a abolição definitiva do sistema de trabalho assalariado.



E agora um ponto positivo.



Robert é muito inteligente. Durante a rodada de diálogo que eu tive com ele, um dos últimos pontos que ele deixou claro foi que eu poderia seguir por um movimento independente uma vez que o Trust não é da linha materialista de Marx como eu sou.



Certa vez fiquei sabendo pela camarada J. que a direção internacional do TRUST REVOLUTION estava destituindo 15 presidentes regionais. Eu avaliei junto com a camarada J. os porquês e as consequências deste ato, nós chegamos à conclusão que talvez Robert estivesse enviando exatamente a mensagem oposta: que a decisão pelo desligamento de 15 presidentes regionais aqui no Brasil ressaltasse a importância do Trust do Brasil andar com as próprias pernas, de maneira independente, sem esperar conselhos externos. Eu pensei na hora: "chegou nossa chance, agora eu quero ver o empenho do movimento Trust do Brasil desligado da matriz, se eles estão prontos pra andar sem Pai".



Quem não entende cai no truque, quem não saca a senha da autonomia espiritual e prática acaba perdendo as esperanças.



Por que eu digo que Robert e companhia eram inteligentes? Da minha parte eu penso que o truque fora ensaiado pela camarada J. juntamente com o Robert para pôr à prova a obstinação dos presidentes regionais com os propósitos revolucionários cujo Trust é apenas uma expressão. Devo dizer que passei no teste. Aceitaram o perigo de esvaziar o movimento em troca da Ideia Revolucionária, estão prontos pra abandonar as pessoas mas não os princípios.


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