RÁPIDO COMENTÁRIO ACERCA DAS DISCUSSÕES NO GRUPO "CÉLULA" QUE NÃO PARTICIPEI NA ÉPOCA
Eu não participei daquele intenso debate na época no grupo CÉLULA com o camarada 1257, participaram vários camaradas, eu posso até tardar mas eu não falho.
Aquele número 1257 eleva o revisionismo marxista ao ponto de se rebaixar ao senso-comum dizendo: que não podemos nos basear pelo século XIX pois o século XIX não tem concretude hoje, veja que ele está a beira de consolidar Marx como um autor anacrônico, um autor do século XIX feito para o século XIX (talvez até considere que é um autor europeu feito especialmente pra a europa que é o argumento dos posmods); que se considerarmos o proletariado como sujeito histórico elevado à condição de classe no ano de 1848, estaríamos sendo idealistas pois proletariado não tem concretude hoje.
E ele, na maior cara dura, é capaz de defender o legado do anticomunista Getúlio Vargas que era doido pra dar o rabo pro Eixo mas foi vencido pela força de gravidade americana. (No governo deste burguês latifundiário, Francisco de Oliveira mostra que houve achatamento salarial, o salário se reduzia ao mínimo necessário à sobrevivência). Ele estica o presente ao ponto de dizer que o "progressista" Getúlio "era só o que tínhamos pra época", hoje é diferente de ontem mas o hoje pode ser esticado ao ponto de abarcar certos "ontens", é uma manobra desonesta pra justamente desconsiderar alguns pontos pressupostos que o Marx levantou como fundamentais pois o que Marx falou no século XIX não tem concretude hoje.
Imagine Marx pagando pau pra Otton Von Bismarck? Ele não deixava de esquentar o coro nem do Partido Operário Social Democrata Alemão o qual se diziam ser os herdeiros dele. O mais completo e desenvolvido conhecimento da realidade objetiva credenciava exatamente a mais radical crítica para quem quer que merecesse (tem um carinha no O Capital que Marx o congratula por expressar muito bem o método dialético), subtraia-se assim daquela famigerada desculpinha esfarrapada de que "ah são progressistas; ah é o melhor que tinhamos pro momento".
Marx não era seguidista, adesista, os marxistas é que eram, se Marx fosse marxista ele lamberia as bolas de Simon Bolívar, não era um puxa-saco de líder terceiro-mundista libertador unificador.
Os marxistas deveriam pelo menos desconfiar dessa radical atitude marxiana antes de servir suas línguas pra bunda de algum nacionalista burguês "porque era a realidade concreta do momento".
Lenin segue no mesmo diapasão com seu "todo poder aos sovietes". Também com Lenin nao rolava essa de passar pano.
Marx na carta congratulando a vitória de Lincoln na guerra contra os escravagistas diz: "Consideram uma garantia da época que está para vir que tenha caído em sorte a Abraham Lincoln, filho honesto da classe operária, guiar o seu país na luta incomparável pela salvação de uma raça agrilhoada e pela reconstrução de um mundo social". Ele o felicita pela vitória já com o olhar no futuro, ele empurra Lincoln pra dar o passo seguinte.
Tampouco Marx falava em "materialismo dialético" ou "materialismo histórico" ou "ciência marxista" ou "dialética materialista" e situava bem o que seria a tal "dialética". O primeiro intérprete de Marx foi Engels.
Poucos foram os marxistas naqueles diálogos no grupo CÉLULA que viam o socialismo como processo internacional, aí ficavam batendo cabeça da China ser ou não ser assim ou assado. Por isso concordo com Reinaldo, ele diz: "(...) mas os movimentos operários em todas as conjunturas internacionais deveriam estar muito bem articuladas em suas operações locais e uma dinâmica de co-relações estruturais de âmbito internacional desenvolvidas de modo a suprimir a dinâmica do capital mas isso não foi possível no século XX". Daí o revisionista danado 1257 diz: "Vai ser muito menos possível no século XXI quando o proletariado perdeu o sentido histórico do século XIX".
O Jota no número 1096 manda bem: "Defender Getúlio é retroceder às teses utópicas do século XIX de antes mesmo da Primeira Internacional". Ele está falando dos Napoleões da vida, o 1257 acha bonito defender os Napoleões tardios dos trópicos.
Marx dedicou boas linhas na A IDEOLOGIA ALEMÃ para falar do "intercâmbio universal de homens, coisas e culturas", ele esperava a revolução nos países dominantes (como ele escreve na IDEOLOGIA), Lenin esperava a revolução na Alemanha, não tinha um comunista que não esperasse no restante do século XX uma revolução nos estados unidos. Será que vai chegar o dia que esperaremos uma revolução na China ou já passou?
O danadinho 1257 não reconhece nem a internacionalidade da revolução nem a proletariedade dela.
Outros números piores ainda consideram Marx como "textos, coisas e ideias vindas do papel", daí na ânsia de renovar a teoria e prática para os dias hodiernos, e conclamar os jovens pra ação, cometem as mais amplas barberagens práticas e teóricas. Havia um bichinho posmod ali no grupo que de tão perdido dizia "tinha um mano aqui no sul falando em panfletar, meu, panfetlar, temos que falar em viralizar". Valeria um puxão de orelha do velho ensinamento marxiano "a burguesia só pode sobreviver se revolucionar incessantemente os meios de produzir".
Parece assim que, pra bicharada posmod e marxistas de Vargas, quando novas camadas da realidade surgem decorridas do desenvolvimento histórico-científico-tecnológico as camadas anteriores perdem sua determinidade e funcionalidade, até deixam de existir, não influenciam ou condicionam mais nada, perdem a concretude e não tem mais sentido agir como antigamente pois o passado não está aqui no presente quando na verdade temos novos desdobramentos cujo gérmens estão ali ou muito antes da época de Marx. O velho não necessariamente se torna obsoleto. A reforma agrária foi realizada no intercurso da revolução francesa no século XVIII. Algum marxista contestaria a necessidade dela hoje no Brasil sob a desculpinha da "realidade concreta"? A financeirização aposentou a indústria? De maneira alguma!
Desde quando a massa operária tem tempo e saco de ler textinho em blog e grupinho zapzap ao ponto de substituir o diálogo direto que uma panfletagem proporciona?
Ainda bem que sobre o lance de panfletagem ser atividade superada o astuto número 1096 respondeu há tempo e com muita probidade.
Na verdade rola exatamente o contrário da linearidade que os revisionistas pregam. Faço a seguir uma analogia que pode servir.
Só é possível entender o organismo, não nos seus primórdios, mas sim plenamente desenvolvido. Não se entende a célula tomada individualmente, não se a compreende no nível celular, mas sim como parte de um todo maior organizado em tecidos, órgãos e sistemas, nós não compreendemos a célula individual senão relacionada de forma complexa às outras, com interações com moléculas, enzimas, outros produtores celulares e tudo o mais, a célula só há em nível intercelular, ela só sobrevive de forma interdependente. A chave do bebê é o adulto.
O velho dizia que é mais fácil compreender o órgão que suas células. De fato, é tranquilo entender as funções do fígado, seu papel na desintoxicação do organismo, na reparação do coração rasgado, entre outras tantas. Mais difícil é saber como ele faz isso, e aí adentramos um campo de maior complexidade. Da mesma forma, quando Tom Jobim se pergunta "por que tudo é tão triste?", é fácil responder "porque vivemos num mundo determinado de cima a baixo pela propriedade privada". Mais complicado é esmiuçar a forma como a divisão do trabalho, as classes sociais etc. decorrentes disso tornam a individualidade tacanha e frustrada. Mas já é alguma coisa, quando tanta gente acredita em explicações metafísicas ou naturalistas para a própria desgraça.
O que na época de Marx eram tendências e ele as descreveu com maestria, hoje elas são plenamente desenvolvidas, tem mais razão hoje do que em sua própria época, o pensamento de Karl Marx alcança uma *concretude muito mais hoje do que quando foi enunciado*.
O número 1257 quando diz "nem o modelo soviético serve mais para o século XXI, o século do Big Data, Outsource, Shadow Banking, Nanotecnologia, indústria 4.0" apenas expõe uma "lista de compras", de tecnologias e gelatinas de trabalho humano que de nenhuma maneira desdiz que o ato de descobrir, de transformar a natureza é um ato histórico.
Eu leio José Chasin num texto que ele compôs nos anos 80. Diz assim:
"O verdadeiro não tem si a força de ser prevalecente. Por isso que a evolução da humanidade não é uma linha reta cultural. Por isso que a cultura não é um sistema cumulativo de conhecimentos. A ciência avança e recua. (...). Por isso que no início dessa exposição eu pude dizer que hoje estamos muito abaixo do que estávamos enquanto humanidade no começo do século. Como visão, como padrão, como consciência média mundial estamos hoje, com uma diferença de cem anos, num padrão inferior. O que não quer dizer que hoje não poderíamos estar num padrão muito superior. Mas, não estamos. É um zigue-zague. Que haja obras que estejam muito acima do padrão médio, é outra conversa. Mas, elas estão nas prateleiras. Eu dou um exemplo disso. Quanto se estuda de marxismo na academia, seja a nível de Brasil, seja a nível internacional? E irrecusavelmente o marxismo é, esteja ele certo, esteja ele atravessado por equívocos, a expressão mais alta de todo o pensamento ocidental. *De Aristóteles aos nossos dias, a fórmula mais avançada de cognição é de Marx*. Pode estar incompleta, pode estar cheia de equívocos, contudo não há nenhuma postura mais avançada, mais perfeitamente constituída para a captura da verdade. No entanto, ela não é uma ideologia dominante. No sentido de sistema de idéias. O que é dominante hoje é o neopositivismo e o existencialismo. Ambos, sistemas de idéias constituídos depois de Marx, como reação inclusive a Marx e que constituem parcelas de vedação do real. Portanto, involução, flexão para trás. Por mais sofisticado que apareça o texto e o texto aparece sob alta sofisticação técnica".
José Chasin acertou na mosca mas ele não conheceu o quanto a humanidade recuou pro abismo e a eleição de um bunda suja não serve nem como exemplo.
A conclusão é que não adianta o número 1257 e a bicharada posmod pensar que as ideias que cada período histórico produziu sejam as melhores pra pensar a época da qual ela foi produzida.
O 1257 diz "o Brasil ter relações com Israel durante o governo de Lula e Dilma não fazem do país sionista ou nem "assassino de palestinos". Alguém deveria responder que rola uma capitulação pra lá de vergonhosa com os extermínios, deveria-se romper com Israel, O PT é essa droga mesmo, descaminhos pra dar e vender aos seus satélites.
O Evandro que é um cara maneiro comete umas escorregadas ao afirmar que a teleologia da história é comunista, abre flanco pra bicharada posmod subir em cima respondendo que "o fim do mundo ser comunista é só mais uma nova religião, um darwinismo acrítico de matriz cristã". Problema é que a maioria dos marxistas não conhecem Marx, em escritos de finais de sua vida Marx altera seu paradigma contestando que os países seguem uma "marcha geral da história". Diz em 1877: "Ele [o editor do periódico russo Otechesvenniye Zapiski] se sente obrigado a metamorfosear meu esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa Ocidental numa teoria histórico-filosófica da marche generale [marcha geral] que o destino impõe a todos os povos, quaisquer que sejam as circunstâncias históricas em que eles se encontram".
O número 1257 diz que o socialismo é um devir ("processo em construção"), truque hermenêutico que possibilita qualquer experiência, desde que não siga os trâmites estadunidenses, como socialismo. Esse charlatão aí não pressupõe relações internacionais como pano de fundo e nem proletariado como sujeito histórico.
Quanto menos a revolução se internacionaliza tanto mais o socialismo que se constrange nas fronteiras de um só país vai levar baque atrás de baque dada as reestruturações produtivas engendradas pelos donos do cassino global, daí haja NEP e abertura pro capital privado pra correr atrás do prejuízo tecnológico. E com a cereja do bolo de ter de filiar ricaços no Partido Comunista (Jack Ma, um dos homens mais ricos da China, é filiado no PC). E essa galera revisionista continua no socialismo do "devir", só se for o socialismo do devaneio.
Esses borrobotas se esqueceram há tempos da teoria revolucionária e a maneira de se (re)ligarem a ela é pelo recurso sofístico do "devir histórico".
Para os revisionistas Glanost sem Perestroika ainda é socialismo. O problema é que nem sem Glanost o "socialismo real" do século XX era socialista no sentido de uma transição fundamentada nos preceitos marxianos.
Concordo com o Reinaldo que diz "o que houve nesses países efetivamente não era um processo efetivo de construção do socialismo mas sim um processo de modernização rápida de acordo com a dinâmica sociológica estabelecida internacionalmente. Ou seja, dinâmica do capital. Foi esse fator acumulado a desarticulação em boa parte do mundo que fizeram os Partidos Comunistas se burocratizarem em seus respectivos potitiburos". Alguns autores defendem que houve uma *ruptura* com o capitalismo e não uma transição socialista.
1257 diz:
"O problema é olhar pra URSS e pras experiências Socialistas com os olhos do século XXI, que já começa a ser atraente uma vez que começamos a entrar em uma fase de retrocesso histórico justamente no período em que se dá a queda da URSS, outra é historicizar as experiências Socialistas no princípio do século XX. Adorno, Horkheimer e Fromm como acadêmicos pequenos burgueses nunca trabalharam no chão de fábrica, nunca tiveram seus direitos a itens básicos negados, então do alto de suas torres de marfim Frankfurtiana, a URSS parecia realmente um pesadelo totalitário, mas pro trabalhador das minas do Ruhr, pros estivadores do porto de Hamburgo ou pros camponeses que trabalhavam sob o punho de ferro dos junkers (que foram extintos na Alemanha oriental) fazia muita diferença".
Ora então a URSS ser atraente pro "trabalhador das minas do Ruhr, pros estivadores do porto de Hamburgo ou pros camponeses que trabalhavam sob o punho de ferro dos junkers (que foram extintos na Alemanha oriental)" não tem problema nenhum, é até progressivo o trabalhador viver sob a URSS. Veja o que eu falei: é progressivo e não transição socialista.
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