Mariama,
Como se não bastasse estou
em novas tretas, agora não mais no what que eu deletei e sim no facebook e,
entre inúmeras, me enredei na polêmica da negra Halle Bailey que será (ou já
foi, não acompanhei direito) a pequena sereia Ariel.
A branquitude ficou em
polvorosa e uma ruma de merda se passou. Anoto algumas.
Quantas e quantas vezes
observamos pessoas negras na vida real sendo interpretadas por brancos. E não falo
em ficções de cinema. O maior astro da música de todos os tempos, Michael
Jackson, foi uma vez interpretado por um certo cidadão de cútis branca classe
média de Londres. E nada mais nada menos que Jesus Cristo que, longe de ser
branco de olhos verdes mais parecendo um beduíno de pele morena e queimada
castigada pelo sol, foi e continua sendo uma das maiores falsificações da
história.
Mas se o problema for
ficção, problema resolvido. Aqui está que eu nem sabia e acabei de ler um
comentário que informa que "quando era criança e assistia os filmes do SBT
com a Cinderela negra, a Branca de neve asiática, os sete anões não sendo
anões. Ngm ligava pra nada disso, a gente só queria assistir o filme é se
divertir. Pena que nos dias atuais não é mais assim". E outra diz: "a
versão de todos os contos de fadas da Disney são versões adaptadas. Na história
original da Ariel ela nem fica com o príncipe. Inclusive, no primeiro livro que
li de contos originais, ela era loira [e não cabelos vermelhos como a atual]".
Ouvi dizer que o critério
de escolha foi a voz da garota, tem que ter uma boa voz pra fazer a sereia.
No entanto, segundo
comentário muito astuto, "A Halle Bailey é linda, mas não deveria ser a
Pequena Sereia. Nem ela, nem uma atriz ruiva, nem ninguém. A Disney deveria
fazer ensopado da Pequena Sereia e esquecer que ela existe. Ela é de longe a
princesa mais submissa dos desenhos infantis. Ela abre mão de ter voz, muda seu
corpo, abre mão do seu mundo e da sua cultura, tudo para... Conquistar o
príncipe. Ela ferra com toda a sua comunidade e tudo é resolvido por dois
homens, o príncipe e seu pai. Com ajuda de personagens masculinos, o Sebastião
e o siri. A outra personagem feminina do filme é quem? A Úrsula. A vilã. Ah ta, a velha rivalidade feminina na sua representação mais clássica de inveja. Quando
eu era criança eu gostava do desenho, tinha até uma pelúcia da gaivota. Mas eu
cresci e desenvolvi senso crítico. Por isso defendo que Ariel seja esquecida.
Representatividade é importante, é fundamental. Mas acredito que garotas negras
mereçam uma personagem que defenda sua cultura. E todas as meninas merecem ser
representadas por mulheres mais descoladas, espertas e ativas".
Falava-se da aceitação
mundial da Ariel branca, daí a justeza de se manter branca a Ariel. É o
argumento se esquivando pessoalmente da culpa fazendo-a recair no mundo, o mundo reconhece, sabe e quer assim. Falou-se em tradição, uma vez Ariel ser uma
produção Dinamarquesa de 1837, em originalidade, em exclusividade, em ícone, em
tantas e tantas formas para o mesmo mal e uma das formas mais fantásticas
encontradas pra se dizer o inominável era que o "inconsciente
coletivo" julgava, queria e aceitava a Ariel da cor que ela é, que ela se
fez. Essa merece o prêmio óleo de peroba. Palmas, senhores e senhoras.
Foi recorrente o argumento
que se punha em letras garrafais: é "MINHA OPINIÃO". É a ideologia da
MINHA OPINIÃO transformada numa cruzada racista. A ideologia chamada MINHA
OPINIÃO virou bolha de ressentimento (inveja?) de um mundo que caminha
independente das nossas vontades pessoais. O que os ideólogos do MEU UMBIGO
conseguem, ao tentar parecer que opiniões devam merecer tapete vermelho de
boas-vindas, é suscitar mais bolhas individualistas de opiniões contrárias pois
ora se tenho a liberdade de emitir opiniões, liberdade terá aquelas opiniões
que não gostam da tua, seguindo-se, você vai gritar pela liberdade de não ter
opiniões que não gostem da tua e por aí vai o ciclo insano da guerra
umbigocentrista.
A ideologia da "MINHA
OPINIÃO" virou palanque pra vociferar besteiras. Ora se és a tua opinião,
fique pra você ou fale com o espelho pois o espelho sempre concorda com a tua
opinião. Por que afinal de contas a opinião que é tua tem que ser lida ou
ouvida por outras opiniões? Por um acaso você quer ouvir outras opiniões que
não sejam a tua? Não queres que a tua opinião seja comentada por outras
opiniões? Você acha que nós somos o espelho da tua opinião que você deseja? A
ideologia da MINHA OPINIÃO virou o Santo Graal do racismo mais tosco e sorrateiro.
Diziam que “agora toda
opinião contrária vira racismo” no que eu respondi que o racismo costuma vir na
embalagem isenta da “opinião contrária”.
Constatava-se que a
branquitude tinha fumado bosta de cavalo no lugar de orégano estragado ao
dizer: "Querer torna-la negra PARA MIM é um desmerecimento aos
negros". Alô galera de Marte.
Eita Mariama que a
racistada entrou foi na taca, como diria aquele narrador futebolístico local!
A ficção "Ariel"
é um invólucro que pode ser preenchido por qualquer atriz com características,
capacidades e habilidades suficientes para o papel. Já o racismo e os racistas
não são ficção, é real, prática, sensível, expressa ofensa, dor e ojeriza, você
sente na pele (e na alma) o racismo.
Queria deixar anotado mais
um ponto. A pessoa diz "Para começar, tem muita gente se metendo e dando
opinião que não esta nem aí para os filmes, que nao acompanham, que não
convivem com o universo infantil". E a minha resposta foi: eu nunca
assisti Ariel, só ouço falar e no entanto falar em Ariel não é se meter em
nada. Em três dias de discussões fiquem sabendo mais de Ariel que em trinta e
seis anos de vida, porém isto não é se meter em nada porque as produções sociais
são isso mesmo: sociais. Sociedade da qual eu faço parte pois tudo que é humano
me diz respeito. A você não? Nada que é humano me é estranho. A vida não é uma
colcha de retalhos onde as partes nada tenham a ver com as outras, besteirol
que envereda na patacoada identitária pós-moderna que vê a vida dividida em
subsistemas, nos tais "lugares de fala": negros ali, LGBT aqui,
mulheres acolá e neste terreno o homem “que se mete” a apoiar as lutas
“alheias” em geral seria o opressor. O identitarismo de esquerda
responsavelmente conjuga as lutas parciais na categoria geral de “classe”:
ninguém solta a mão de ninguém.
A OPINIÃO É MINHA E NÃO DÔ
PRA NINGUÉM GENTALHA GENTALHA
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