Páginas

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Fogo nos racistas!


Mariama,


Como se não bastasse estou em novas tretas, agora não mais no what que eu deletei e sim no facebook e, entre inúmeras, me enredei na polêmica da negra Halle Bailey que será (ou já foi, não acompanhei direito) a pequena sereia Ariel.


A branquitude ficou em polvorosa e uma ruma de merda se passou. Anoto algumas.


Quantas e quantas vezes observamos pessoas negras na vida real sendo interpretadas por brancos. E não falo em ficções de cinema. O maior astro da música de todos os tempos, Michael Jackson, foi uma vez interpretado por um certo cidadão de cútis branca classe média de Londres. E nada mais nada menos que Jesus Cristo que, longe de ser branco de olhos verdes mais parecendo um beduíno de pele morena e queimada castigada pelo sol, foi e continua sendo uma das maiores falsificações da história.


Mas se o problema for ficção, problema resolvido. Aqui está que eu nem sabia e acabei de ler um comentário que informa que "quando era criança e assistia os filmes do SBT com a Cinderela negra, a Branca de neve asiática, os sete anões não sendo anões. Ngm ligava pra nada disso, a gente só queria assistir o filme é se divertir. Pena que nos dias atuais não é mais assim". E outra diz: "a versão de todos os contos de fadas da Disney são versões adaptadas. Na história original da Ariel ela nem fica com o príncipe. Inclusive, no primeiro livro que li de contos originais, ela era loira [e não cabelos vermelhos como a atual]".


Ouvi dizer que o critério de escolha foi a voz da garota, tem que ter uma boa voz pra fazer a sereia.


No entanto, segundo comentário muito astuto, "A Halle Bailey é linda, mas não deveria ser a Pequena Sereia. Nem ela, nem uma atriz ruiva, nem ninguém. A Disney deveria fazer ensopado da Pequena Sereia e esquecer que ela existe. Ela é de longe a princesa mais submissa dos desenhos infantis. Ela abre mão de ter voz, muda seu corpo, abre mão do seu mundo e da sua cultura, tudo para... Conquistar o príncipe. Ela ferra com toda a sua comunidade e tudo é resolvido por dois homens, o príncipe e seu pai. Com ajuda de personagens masculinos, o Sebastião e o siri. A outra personagem feminina do filme é quem? A Úrsula. A vilã. Ah ta, a velha rivalidade feminina na sua representação mais clássica de inveja. Quando eu era criança eu gostava do desenho, tinha até uma pelúcia da gaivota. Mas eu cresci e desenvolvi senso crítico. Por isso defendo que Ariel seja esquecida. Representatividade é importante, é fundamental. Mas acredito que garotas negras mereçam uma personagem que defenda sua cultura. E todas as meninas merecem ser representadas por mulheres mais descoladas, espertas e ativas".


Falava-se da aceitação mundial da Ariel branca, daí a justeza de se manter branca a Ariel. É o argumento se esquivando pessoalmente da culpa fazendo-a recair no mundo, o mundo reconhece, sabe e quer assim. Falou-se em tradição, uma vez Ariel ser uma produção Dinamarquesa de 1837, em originalidade, em exclusividade, em ícone, em tantas e tantas formas para o mesmo mal e uma das formas mais fantásticas encontradas pra se dizer o inominável era que o "inconsciente coletivo" julgava, queria e aceitava a Ariel da cor que ela é, que ela se fez. Essa merece o prêmio óleo de peroba. Palmas, senhores e senhoras.


Foi recorrente o argumento que se punha em letras garrafais: é "MINHA OPINIÃO". É a ideologia da MINHA OPINIÃO transformada numa cruzada racista. A ideologia chamada MINHA OPINIÃO virou bolha de ressentimento (inveja?) de um mundo que caminha independente das nossas vontades pessoais. O que os ideólogos do MEU UMBIGO conseguem, ao tentar parecer que opiniões devam merecer tapete vermelho de boas-vindas, é suscitar mais bolhas individualistas de opiniões contrárias pois ora se tenho a liberdade de emitir opiniões, liberdade terá aquelas opiniões que não gostam da tua, seguindo-se, você vai gritar pela liberdade de não ter opiniões que não gostem da tua e por aí vai o ciclo insano da guerra umbigocentrista.


A ideologia da "MINHA OPINIÃO" virou palanque pra vociferar besteiras. Ora se és a tua opinião, fique pra você ou fale com o espelho pois o espelho sempre concorda com a tua opinião. Por que afinal de contas a opinião que é tua tem que ser lida ou ouvida por outras opiniões? Por um acaso você quer ouvir outras opiniões que não sejam a tua? Não queres que a tua opinião seja comentada por outras opiniões? Você acha que nós somos o espelho da tua opinião que você deseja? A ideologia da MINHA OPINIÃO virou o Santo Graal do racismo mais tosco e sorrateiro.


Diziam que “agora toda opinião contrária vira racismo” no que eu respondi que o racismo costuma vir na embalagem isenta da “opinião contrária”.


Constatava-se que a branquitude tinha fumado bosta de cavalo no lugar de orégano estragado ao dizer: "Querer torna-la negra PARA MIM é um desmerecimento aos negros". Alô galera de Marte.


Eita Mariama que a racistada entrou foi na taca, como diria aquele narrador futebolístico local!


A ficção "Ariel" é um invólucro que pode ser preenchido por qualquer atriz com características, capacidades e habilidades suficientes para o papel. Já o racismo e os racistas não são ficção, é real, prática, sensível, expressa ofensa, dor e ojeriza, você sente na pele (e na alma) o racismo.


Queria deixar anotado mais um ponto. A pessoa diz "Para começar, tem muita gente se metendo e dando opinião que não esta nem aí para os filmes, que nao acompanham, que não convivem com o universo infantil". E a minha resposta foi: eu nunca assisti Ariel, só ouço falar e no entanto falar em Ariel não é se meter em nada. Em três dias de discussões fiquem sabendo mais de Ariel que em trinta e seis anos de vida, porém isto não é se meter em nada porque as produções sociais são isso mesmo: sociais. Sociedade da qual eu faço parte pois tudo que é humano me diz respeito. A você não? Nada que é humano me é estranho. A vida não é uma colcha de retalhos onde as partes nada tenham a ver com as outras, besteirol que envereda na patacoada identitária pós-moderna que vê a vida dividida em subsistemas, nos tais "lugares de fala": negros ali, LGBT aqui, mulheres acolá e neste terreno o homem “que se mete” a apoiar as lutas “alheias” em geral seria o opressor. O identitarismo de esquerda responsavelmente conjuga as lutas parciais na categoria geral de “classe”: ninguém solta a mão de ninguém.


A OPINIÃO É MINHA E NÃO DÔ PRA NINGUÉM GENTALHA GENTALHA


Nenhum comentário:

Postar um comentário